quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Descolada Louca

Estava voltando pra casa, mas assim que desci do ônibus, minha sandália rasgou. Depois de três ligações para tentar uma carona que se compadecesse da minha dor e humilhação sem sucesso, decidi andar até em casa assim mesmo.

Eu decidi, mas fiquei parada, esperando o melhor momento e a melhor maneira. "Espero o sinal fechar né, porque atravessar a avenida correndo nem pensar", "Vou arrastando a sandália até em casa como quem torceu o pé ou tiro ela de uma vez?", "Calma, isso acontece com todo mundo, você é adulta e vai saber lidar com isso".

Atravessei a rua arrastando a sandália. Ridiculamente arrastando a sandália. Os carros buzinaram porque eu não estava na faixa de pedestre e andava devagar: arrastando meu pé direito com minha sandália de dedo rasgada. Era uma avenida de mão dupla, com um canteiro no meio. Parei no meio e decidi tirar a sandália pois, por mais que eu quisesse que achassem que eu havia torcido o pé, isso só estava chamando mais atenção para meu pé e as pessoas iam ver que, na verdade,  a minha sandália de dedo havia rasgado e eu era vaidosa o suficiente para simplesmente querer que eles achassem que eu havia torcido o pé. O que seria muito mais constrangedor, por elas já saberem tanto sobre meus traços de personalidade em tão pouco tempo.

Como a fantasia de "Menina com pé torcido mancando" não ia dar certo, vesti a de "descolada louca" e fui descalça. De calça social, bolsa social, maquiada... e descalça. Quando chego do outro lado, a primeira coisa que vejo é uma mulher passeando com seu cachorrinho, que usava sapatinhos pretos. "Essas coisas só acontecem comigo", "Esse cachorro bonitinho foi colocado estrategicamente no meu caminho para me constranger e humilhar, só pode ser" "Quem fez isso?? Quem fez isso?Quem é o dono desse jooogo???"

Calma. Controle-se. A fantasia de "descolada louca" podia dar certo. E caberia até interpretações mais profundas como "Tadinha, dia ruim no trabalho, tirou os sapatos para sentir a a terra e relaxar". É, podia, podia, mas olha que nem emprego eu tenho no momento.

Pra completar, chego no hall do prédio, esperando o elevador, que também era aguardado por mais gente. Um casal que procurava um ap para alugar. E eu, a primeira possível vizinha que eles conhecem, lá, descalça, "descolada louca", com seu par de sandálias na mão, esperando o elevador.




terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Perseguidos pela lua

Na van, voltando pra casa à noite após uma tarde exaustiva de trabalho, um menino de uns três anos, sentado no colo do pai, que carregava a lancheira azul de super heróis do menino, fazia perguntas durante todo o caminho.

Eu sei que você já ouviu falar dessa fase, em que as crianças perguntas o porquê de tudo. Eu já ouvi muito falar dela e suspeitei que o menino havia visto uma matéria especial na TV sobre o assunto, pois, apesar de ter ouvido falar, nunca havia presenciado um interrogatório de 30 minutos ininterruptos sobre assuntos aleatórios de uma crianças aos pais. Aquele menino estava fazendo isso e parecia de propósito. Ele viu a matéria na Discovery e pensou "Hoje à noite vou sacanear meu papai fazendo trilhões de perguntas". Perverso o menino.

 Em certa altura do caminho, o menino olha para o céu inquieto, enquanto coça a palma da mão e pergunta:

 - Papai, por que quando a gente para, a lua para?

 Achei lindo e sorri. Pensei em várias respostas para aquela pergunta. Pensei tanto que nem ouvi a resposta do pai do menino. Aconteceu já faz uns três anos e eu nunca esqueci.